Superintendente do BNDES afirma que irão ampliar a atuação na área de inovação

O banco vai priorizar internet das coisas, bioeconomia e manufatura avançada em 2018.

By Gestiona - 19 fev. 2018

Neste ano, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) colocou a inovação como uma de suas prioridades, ao lado de infraestrutura, modernização da administração pública e meio ambiente. É uma agenda que tem crescido dentro do banco nos últimos anos. O montante de capital destinado à busca por novas tecnologias passou de menos de 1% nos anos 2000 para 4% atualmente. Pode parecer pouco, mas não se esqueça dos recursos gigantescos que o BNDES administra. Em 2017, o banco desembolsou R$ 2,3 bilhões em crédito para inovação.

“A agenda de inovação está presente e é da natureza de todos os bancos de desenvolvimento no mundo inteiro”, afirma Julio Ramundo, superintendente da área de Indústria de Base do BNDES. Segundo ele, os setores que devem ser priorizados em 2018 são: internet das coisas, bioeconomia e manufatura avançada. São tecnologias com potencial de aumentar a produtividade da economia brasileira, segundo ele.

Para esse ano, o BNDES colocou a inovação como um dos pilares estratégicos do banco. O que vocês já estão fazendo nessa área, e o que pretendem fazer em 2018?

Julio Ramundo: A inovação hoje ocupa um papel central na estratégia do BNDES, porque normalmente temos ganho de produtividade associado à introdução de tecnologia, e os benefícios se espalham pela economia como um todo. Aqui no banco temos praticamente todos os tipos de instrumentos que podemos usar para promover a inovação: desde linhas não reembolsáveis a capital de risco e financiamento.

Como funciona cada um deles?

Julio Ramundo: A linha não reembolsável é normalmente onde temos maior risco tecnológico e onde temos maior grau de externalidade. É um dinheiro que não tem retorno para o banco, não é um empréstimo e o banco também não se torna sócio da empresa. Mas é também onde a externalidade social é maior, ou seja, o benefício é apropriado pela população como um todo, sem que o setor privado necessariamente consiga se aproveitar dele. Na linha não reembolsável, por exemplo, investimos R$ 100 milhões à Fundação Butantan para a pesquisa de uma vacina tetravalente para a dengue. Outro exemplo foi um aporte de R$ 23 milhões à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ao Instituto de Biologia Molecular do Paraná para o desenvolvimento de um kit de diagnóstico rápido para a zika.

Mas há também casos em que o BNDES adquire participação nas empresas?

Julio Ramundo: Sim, isso acontece tanto com participação direta, mas também com participações via fundos. Hoje, a gente tem dez fundos de venture capital e seed abertos, com mais de US$ 500 milhões disponíveis. A agenda do empreendedorismo é muito importante. Temos as linhas do Criatec voltadas para essas empresas de pequeno porte, em que o fundo entra como sócio em um estágio muito inicial da empresa. São casos em que a companhia ainda não tem condições de tomar uma dívida. Por isso, a gente tem de participar do risco. Pode ser que o dinheiro não retorne, mas pode ser que a gente ganhe muito dinheiro também. É a clássica relação risco/retorno, ou seja, quanto maior o risco, maior o retorno esperado.

Filipe Borsatto: Na área de fundos voltados à inovação, temos uma carteira de cerca de R$ 1 bilhão. Mais ou menos metade desse montante é dos fundos Criatec. O primeiro foi lançado em 2007 e está em sua fase final. Foram três etapas do Criatec, em cada uma delas foram escolhidas 36 empresas. Com o Criatec 1, que está se encerrando, vemos uma clara perspectiva de retorno. Já recebemos uma boa parte do capital investido e ainda temos 20 empresas em carteira. Além deles, criamos o fundo Primatec, com R$ 40 milhões, que é voltado a empresas incubadas em universidades e centros de tecnologia.

Por que é importante para o banco ter essas linhas com participação no capital das empresas?

Filipe Borsatto: Para empresas iniciantes com alto potencial crescimento, voltadas à inovação e tecnologia, acreditamos que essa forma é mais adequada. São companhias com poucos ativos para dar como garantia, e que têm mais dificuldade em ter o crédito aprovado. E, além do dinheiro, no Criatec, há uma contribuição do fundo na gestão e crescimento da empresa. A experiência do fundo acaba contribuindo para o crescimento se dar de uma forma mais tranquila. Já ouvimos de empreendedores que o maior benefício foi o fato de os três sócios não se matarem, porque o fundo conseguiu organizar a gestão da empresa.

E há também os empréstimos? Para quais empresas eles são destinados?

Julio Ramundo: São normalmente para empresas maiores, em iniciativas em que o risco pode vir a ser menor. O BNDES financia de 70% a 80% do projeto e a empresa tem de nos pagar de volta. A Embraer, por exemplo, já foi financiada pelo BNDES com linhas de inovação para os novos modelos de jatos dela.

Qual é o peso dos investimentos em inovação dentro do BNDES?

Julio Ramundo: O BNDES já tem um esforço há algum tempo para construir essas linhas de inovação, e temos agendas específicas setoriais, em que procuramos impulsionar determinadas agendas de inovação. Isso, nos últimos anos, ampliou bastante a nossa atuação na área, mas nós queremos aumentar mais. Saímos no meio dos anos 2000 de algo como R$ 600 milhões no final de 2009 e 2010 para R$ 6 bilhões destinados à inovação em 2015. O importante é que a gente tem mantido a participação relativa de desembolso para inovação no desembolso total do BNDES, que saiu de menos de 1% nos anos 2000, e tem se mantido na ordem de 4%. Queremos aumentar isso, ampliando a nossa tomada de risco em projetos de natureza tecnológica. E a gente pretende fazer isso por meio de participação e por meio de projetos também.

O que o banco está vendo como eixos de inovação e oportunidades para 2018?

Julio Ramundo: Temos três agendas importantes no médio prazo. A primeira é a internet das coisas, a segunda é a bioeconomia e a terceira é a manufatura avançada. Essas três áreas merecem uma atenção especial das equipes do BNDES e deverão concentrar grande parte do nosso envolvimento em inovação nos próximos anos.

Por que esses foram os três eixos escolhidos?

Julio Ramundo: É uma questão ligada à oportunidade e tendência. Na oportunidade, vou usar o caso da bioeconomia. O Brasil tem potencialidades muito grandes nessa área, por exemplo, em química verde. Tudo o que está ligado à bioeconomia nos interessa, é uma oportunidade histórica do Brasil e tem muito potencial. Na área de internet das coisas, a gente aposta em ganho de produtividade para vários setores da economia. Um estudo recente que contratamos indica que a difusão das tecnologias ligadas à internet das coisas poderia ter um impacto de até US$ 200 bilhões em 2025. É um impacto muito grande que pode mudar não só a forma de fazer negócio, como também trazer muito ganho de produtividade. Em internet das coisas, com base nesse estudo, elencamos quatro segmentos: cidades, agronegócio, saúde e indústria. A manufatura avançada é algo que vem ganhando atenção em países de economia desenvolvida e todos eles têm iniciativas para essa área. Estamos falando de impressão 3D e comunicação máquina a máquina, por exemplo. A indústria manufatureira deve passar por uma grande transformação nos próximos anos.

Fonte: Época Negócios

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